segunda-feira, 7 de julho de 2008

O Caminhoneiro


Francisco, mais conhecido como “Chico Cola Maluca” era um caminhoneiro que já por muito tempo percorria todos os tapetões pretos deste Brasil. Era chamado assim porque um dia sua mulher o trocou por um sapateiro da cidade e os boatos foram cair nos ouvidos de seus amigos do batente que colocaram esse apelido nele. “Cadê tua cristal1 Cola Maluca”. Perguntavam eles ao velho Cowboy do Asfalto.

Francisco não dava muita atenção aos insultos dos seus amigos, mas um dia quando estava tomando umas doses de dinamite2 empalhada no Bar do Trunkão, um borracheiro que era seu conhecido chegou com uma lata de cola na mão e disse: “Chico, tua mulher mandou e disse que era pra tu colar o chifre.” Não queiram saber! O curto-circuito3 foi grande, garrafa de cerveja parecia chuva caindo do céu. Os murros eram secos. Não demorou muito até os dois serem colocados para fora do estabelecimento. Chico foi direto para seu caminhão vermelho que encontrava-se no acostamento. Entrou e tentou acalmar a cabeça. Dormiu por um certo tempo. Acordou meio tonto. Olhou no relógio e viu que já eram quase 22:00 e ele estava muito atrasado para pegar o asfalto pelas pernas e começar mais uma jornada.

Em pouco tempo os pneus já estavam sobre a pista que encontrava-se levemente molhada pela neblina que havia caído há pouco tempo. Tudo era escuridão, os vaga-lumes4 manchavam com luz aquele asfalto que estava mergulhado em densas trevas, realmente aquela estrada fazia qualquer Cowboy ficar angustiado. Era conhecida como “a rodovia da morte”, tinha uma grande extensão e uma história de muito sangue para contar.

Francisco já estava há um certo tempo dirigindo e achou tudo muito estranho. A BR não apresentava nenhum movimento, carros e outros caminhões não passavam pelo local. Tudo estava tão solitário. O ronco do motor de seu caminhão parecia ser silenciado pelos grilos que cantavam ao longo da estrada. Os faróis desenterraram de dentro da escuridão um acontecimento muito estranho.

Francisco pisou um pouco no freio para diminuir a velocidade. Os olhos dele arregalaram-se e quase grudaram no pára-brisa. Um grupo de freiras caminhava no acostamento. Formavam uma fila indiana. Ele pôde reconhecer que eram freiras pela enorme batina e véus que as mesmas usavam. Passou por elas bem lentamente, o caminhão quase parou, as freiras pouco se importaram, elas pareciam estar concentradas em algo, aparentavam estar destinadas há alguma missão. Chico balançou a cabeça sem entender o que aquelas mulheres faziam numa hora daquela na “Estrada da Morte”.

Ele continuou seu caminho e, mas na frente percebeu outra cena ainda mais perturbadora. Uma jovem senhora estava empurrando um carrinho de bebê e isso no meio do tapetão preto. Quando ela percebeu a presença de luz olhou rapidamente para trás e com muita rapidez dirigiu-se para o acostamento se apresando em fazer um sinal de carona para Francisco, que mesmo de longe notou um semblante de abandono e preocupação nos os olhos daquela jovem mãe.

Francisco parou o caminhão. Mesmo com medo de tudo aquilo ser uma tremenda armação para lhe roubarem a carga que transportava. Ele abriu a porta de passageiro e olhou para a mulher que usava um vestido de linho branco. Os olhos do Cola Maluca foram em direção ao carro que a mulher empurrava. Ele levou um baita susto ao ver que o que a mulher carregava naquele carrinho, era um anão, os olhos dele eram bem grandes e esbugalhados, os dentes eram extremamente grandes ao ponto de não lhe caberem na boca. O menino, melhor dizendo, o anão era careca, os poucos fios de cabelo que tinha lhe caiam sobre o rosto e eram cumpridos e muito finos, alguns estavam entrelaçados no enorme chifre vermelho que lhe sai da cabeça. A mulher falou com uma voz arrastada e grossa, parecia uma voz vinda do inferno: “Eu quero ir com você corno das trevas, me leve, me leve. Meu pequeno garotinho parece com você”. Realmente, as duas únicas semelhanças que Francisco tinha com o pivete era o chifre e a feiúra. Enquanto a mulher falava, Chico olhou no retrovisor e viu que as freiras que havia visto há pouco tempo vinham correndo na direção do caminhão. Elas pareciam estar muito bravas. Algumas traziam na mão grandes lanças pontiagudas. Francisco esfregou os olhos rapidamente e pregou-os novamente no retrovisor e percebeu que não estava sonhando. As senhoras que vestiam as longas batinas pretas corriam numa rapidez tremenda. A mulher que estava pedindo uma carona continuava falando: “Amor... quero ir com você... não abandone a mim e seu lindo filho”.

Ele fechou rapidamente a porta. As freiras ganhavam mais velocidade. A jovem mulher sacou de dentro da roupa um enorme tridente que emitia uma luz cobre. Chico entrou em desespero. O caminhão estava estancando. Ele não conseguia dar a partida. O anão levantou-se do carro e...



1. Cristal significa esposa para os caminhoneiros.

2. Água ardente de cana, cachaça.

3. Briga

4. Faróis

Paulo Razoni

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