sexta-feira, 11 de julho de 2008

Contos de um Acampamento


O canavial dançava lentamente a favor do vento, num compasso intrigante à beira da estrada. Já era possível observar ao longe, principalmente pelo barulho insuportável do motor, um carro vindo em direção à região serrana carregado de malas e outros objetos na parte superior. O automóvel era uma Kombi azul Royal do ano de 86. Esta subia e descia as ladeiras naturais da estrada ao som balançante de “Bob Dylan”, sem deixar de expelir fumaça um só segundo.

Havia ao todo nove pessoas na Kombi, o motorista e um grupo de jovens que seguiam para o Alto da Serra, local bastante conhecido na pequena cidade de Guaramiranga. A maioria encontrava-se em sono profundo, pois a viajem já durava nada menos que quatro horas. Além do motorista, Dj era o único que estava acordado, mas até então desatento. O jovem ouvia música alta em um “mp3” por não suportar “Bob Dylan”, enquanto o motorista balbuciava algumas palavras em um inglês quase que neologista, e jogava sua cabeça de um lado para o outro acompanhando assim o ritmo da música.

Foi aí que Dj percebeu algo estranho. O caminho que eles seguiam era outro, diferente do que ele conhecia. A paisagem pulava grosseiramente aos olhos do jovem que pareceu ficar inerte por alguns segundos tentando reconhecer algo que nunca tinha visto. Além do mais, o normal era que a viajem durasse três horas e meia, e não mais que quatro. Desafogando os fones de dentro dos ouvidos, ele tratou de acordar e avisar aos outros sobre o fato. Depois dos berros que DJ desamarrou de sua garganta, todos vieram a acordar, os jovens já estavam olhando janela a fora pensando ter chegado no local de destino, mas a paisagem ficava cada vez mais irreconhecível. Começava a partir dali uma pequena discussão entre eles para saber quem havia contratado aquele motorista e por que ele estava tomando um outro rumo. O relógio consumia rapidamente as horas, parecia voar fazendo com que o sol morresse na linha do horizonte sem dar um adeus à lua que ainda não havia aparecido na outra extremidade.

Ruth e Dayanne, as duas únicas meninas do grupo, excluíam-se dizendo que ficaram responsáveis apenas pela organização dos mantimentos. “Foram vocês que arrumaram esse motorista estranho, o que a gente faz agora?”. O tom de voz das duas transmitia medo e um começo de desespero. Nessa hora, Paulo, que adorava imaginar situações absurdas e assustadoras, divertia-se com a preocupação das garotas dizendo que o motorista estava levando-os para alguma civilização hostil e desconhecida. Rogério, empolgado, ia complementar a história do amigo, mas Rodolfo, seu irmão mais velho, o impediu tomando a frente de todos. “Eu vou falar com esse sujeito”, disse de forma sensata passando as mãos no cabelo afim de conter o nervosismo. “Acho que nos perdemos”, falou Dj.

Enquanto Rodolfo tentava chegar perto do motorista, lutando contra o balanço da estrada, Raul e JP procuravam o cartão de aluguel do carro que receberam ao pagar a primeira parte da corrida. Nele havia o nome e o telefone do motorista. “O nome dele é Pereira!”, gritou Raul, “Pereira, Pereira”, repetiu o jovem mais duas vezes. Isso mostrava que o nervosismo já estava tomando de conta do grupo. Rogério e Paulo continuavam inventando possibilidades toscas para aquela situação e riam entre si sem se importar com a angustia dos demais.

“Oh seu Pereira??”, disse Rodolfo. “Por que estamos indo por esse caminh...”. “Velho Jô!”, interrompeu o motorista. “O nome é velho Jô!”, repetiu. “O que?”, disse Rodolfo olhando para trás com desconfiança. “Mas nos indicaram alguém chamado Pereira”, continuou. O homem virou para trás tirando os óculos escuros, os olhos dele eram grandes e amarelados, a pele de seu rosto era manchada e em algumas partes as espinhas da época de sua puberdade pareciam tê-lo atacado ferrenhamente. “Meu filho...”, a voz do velho Jô saiu feito um trovão, “Pereira morreu há sete anos...”. Os olhos de Rodolfo quase saíram da órbita. Os outros passageiros pouco se importavam com o assunto que estava sendo tratado entre a cabine e o primeiro banco de trás da Kombi, mas ao ouvirem as últimas palavras do velho todos ficaram intrigados. Os dois contadores de histórias agora estavam sérios e de testa franzida.

Nessa hora todos já estavam cismados com aquele sujeito estranho. De repente as idéias malucas de Paulo começavam a parecerem coerentes. “Mas por que não fomos avisados sobre isso?”, gritou Rogério lá do fundo. “Ninguém nos falou de você”, complementou Raul. Agora Dj já estava do lado de Rodolfo. “Essa estrada não é a que conhecemos, onde estamos?”, disse. O velho Jô nada respondia. “Para onde está nos levando?”, disse Rodolfo segurando em seu braço. “Calem-se!!”, gritou o velho com sua voz estrondosa. “Essa é minha música favorita!”, continuou. Todos arregalaram os olhos espantados. “Que se dane a música!”, disse Raul com seu jeito explosivo. “Queremos ir para Guaramiranga, e não para o inferno com você!”, continuou. As meninas já estavam realmente assustadas e pediam para sair dali. Rogério tentava acalmá-las dizendo que iria arrumar outro transporte até a cidade, enquanto os outros tentavam arrancar alguma informação do velho. “Calem-se todos vocês pirralhos!” - gritou novamente o velho empurrando com o braço direito Dj e Rodolfo, que foram amparados por Rogério e Paulo. Nessa hora Raul e JP voaram em cima do velho mandando que ele parasse segurando em seu braço. O velho tentou fazer o mesmo com os dois mas não pode com JP, que apesar de ser o mais novo do grupo, era o mais alto e forte. A situação ficou fora de controle, ouviam-se os gritos das meninas no fundo, até que um barulho de buzina ecoou na frente deles. Era um ônibus que vinha em sentido contrário, o velho não teve escolha a não ser puxar a direção para o lado onde havia um pequeno desfiladeiro em forma de talude. O carro despencou rapidamente tombando em pedras e troncos, todos gritavam desesperados e se chocavam entre si até a Kombi colidir de frente numa enorme árvore.

O automóvel espalhou folhas e levantou muita poeira até o local da colisão. No chão as malas se espalharam juntamente com estilhaços de vidro e os mantimentos que foram arremessados sobre a terra úmida. A lataria da banheira azul Royal já estava em estado crítico e, depois do choque com a árvore, estava parecendo uma enviada pela pior sucata do Brasil. O sol ainda estava perceptível no horizonte, mas já começava a pairar no ambiente uma névoa cinzenta. Alguns minutos depois Dj despertou lentamente, viu sangue em suas mãos e se assustou, parecia não acreditar que fosse seu. Ele olhou em volta e viu Dayanne e Ruth desacordadas sobre suas poltronas. Rogério estava sentado junto de seu irmão que também parecia estar desacordado. “Ele está bem, só desmaiado”, disse a Dj, que tentava se aproximar das garotas com dificuldade. Algumas poltronas haviam se soltado, o que tornava a movimentação dentro do carro mais difícil. Ele constatou que as duas meninas estavam bem e respirou aliviado, fazendo um sinal para Rogério. Os dois olharam para o outro lado e viram Paulo e Raul sentados com alguns arranhões pelo corpo. Logo depois as meninas despertaram. Rodolfo também já estava acordado e se queixava de dor na região das costelas. No mais pareciam estar todos bem. “Cadê o JP!”, gritou Dayanne. Todos olharam em volta preocupados. JP realmente havia sumido. “O velho também não está aqui!”, disse Paulo. A porta da frente estava aberta e com marcas de sangue.

Todos saíram de dentro da Kombi meio tontos, olharam ao redor confusos e gritaram o nome de JP, mas nem sinal do rapaz. Sem conter o desespero, as meninas choravam assustadas, enquanto os rapazes olhavam uns para os outros tentando imaginar soluções. “Vamos atrás do JP”, disse Rodolfo. “Acho melhor esperarmos ajuda, alguém deve ter visto o acidente”, disse Ruth prendendo o choro. “Vamos juntar todas as coisas que estão inteiras, temos que acampar em algum lugar por aqui”, disse Rogério apanhando uma mala. “Tem razão”, disse Raul ajudando-o com os mantimentos. Paulo analisou o desfiladeiro por onde haviam despencado, por sorte ele não era tão íngreme, senão já estariam mortos. “Seria melhor a gente voltar pra estrada para conseguir ajuda, mas não consigo vê-la”, disse Paulo. “Que coisa estranha”, disse Raul cismado. Dj olhava atentamente para o horizonte marcado por árvores e vultos macabros, como se tivesse visto alguma coisa. “O que é aquilo?”, disse desconfiado. “O quê? Não vejo nada”, disse Rodolfo. Todos olharam atentos na direção apontada, parecia ser uma sombra que foi rapidamente engolida pela névoa. “Será que era o JP?”, perguntou Rogério apertando os olhos. “E se for aquele velho maluco?”, disse Dayanne. “Se for eu vou acabar com ele!” disse Raul com as mãos fechadas. “Calma aí pessoal, vamos nos acomodar por aqui de algum jeito. Já é praticamente noite, sair por aí seria arriscado”, disse Dj apontando para a lua que começava a se mostrar. “Tem razão, vamos esperar até o amanhecer e aí faremos alguma coisa”, concordou Rogério. Todos pareciam estar de acordo com a idéia e começaram a se acomodar por ali mesmo arrumando as barracas e as malas. Pouco tempo depois, apenas uma fogueira que eles prepararam iluminava e aquecia seus rostos desolados, enquanto a lua se escondia atrás de nuvens negras. O sol já não reinava mais, e a sorte desses jovens parece que também não.

--------------- Fim do 1° capítulo ----------------
Direitos autorais reservados.
Por: Rogério Freitas / Paulo Razoni

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Partindo


Você é tudo que eu preciso,

minha força, não preciso de mim mesmo

se estou ao seu lado...

Pois você é tudo que eu preciso,

meu mundo fechado dentro de um só coração...


Minha máquina mágica de voltar no passado...

você é... é tudo que restou dentro

de uma coração onde somente você existia...


Minha pedra preciosa, minha vida...

você é...

por isso estou a beira da morte, clamando por alguém que

já não quer me ter nos braços, mas que tanto eu segurei enquanto chorava...

minha vida...você é...


e agora estou partindo...

Talvez no horizonte possa olhar mais uma vez nos teus olhos e dizer que eu te amo...



Paulo Razoni

Leve-me



Leve-me embora para um mundo

onde os sonhos se realizem

onde o amor se concretize e

viva por tempos afim, para

um lugar onde a velhice

terá fim.


Leve-me para os teus braços,

leve-me pois sem eles não

posso viver. Leve-me para

o aconchego dos teus seios

respirantes, leve-me para

bem longe da infelicidade,

leve-me para um mundo onde

o nosso amor seja a única

coisa possível de se fazer.

Leve-me para junto dos teus

lábios, pois minha boca

clama um beijo teu.


Leve-me contigo para estar ao

teu lado quando o sol sucumbir

de amor o mar e os dois

derem vida ao luar.


Leve-me para um mundo onde as

rosas não choram, para um lugar

onde a vida seja bela

como o nascer do sol e simples

como o vôo de uma borboleta.


Leve-me, leve-me, leve-me,

pois a vida só é feliz se

vivida intensamente.


Paulo Razoni

Rosa da Renovação



Entrelaçadas como na espera

de uma decisão.

Os raios do sol dispensados

neste mundo, pois a cegueira

eterna tomou conta dos olhos.


O homem já não se torna mais

ameaça. Na paciência de um

sono eterno a face cora um

olhar perfeito, concedido

pelo salário herdado.


A gélida brisa no cristalino

rosto leva embora

resquícios de uma face

brevemente esquecida pelas

mentes.


A rosa escarlate chora suas

últimas lágrimas vermelhas

sobre o rosto rosado.


Abaixo do gramado, os olhos

perdem a vista do horizonte.

E a escuridão toma conta do

corpo e Ela é a única testemunha

da interação mais perfeita

que existe no universo,

a renovação.

Paulo Razoni

Solidão



Não sei o que faço pra te ter em minhas

mãos, pra morrer ao teu lado

e sair da solidão...


O mundo da voltas e eu sempre tão distante,

tão triste por te ter em fotos que se afogam

em beijos não correspondidos.


Meus olhos só enxergam a névoa

da tua ausência. A tristeza do meu olhar

mancha o pôr-do-sol e as lágrimas inundam

o coração que já está afogado pela falta

do teu toque, pela sutileza da tua

voz que corre longe dos meus ouvidos.


Tudo me remete ao fio de tua presença,

que se encontra fina como uma nuvem no deserto.

As palavras de amor não seriam capazes

de dizer o quanto sinto falta de algo

nunca antes feito, de um beijo ainda não roubado.


A tristeza me consome, estou abandonado

com uma andorinha que perdeu a estrada pro verão...

Tento voar, mas minhas asas foram cortadas

pelo medo de arriscar um salto ao teu encontro.


Estou aqui, tentando nadar contra

um rio de águas caudalosas, sobrevivendo

a cada dia longe do meu mundo, longe de você....

Sempre estarei só, mas contigo em meus pensamentos...



Paulo Razoni.




Olhos


Os teus olhos verdes iluminam

o mundo e enchem de

felicidade as rosas que sorriem

a rutilância do teu olhar.


Seria o mundo capaz de

ferir-te, tocando se quer em

um única pétala do teu

frágil corpo?

Seria astúcia, inveja

do lindo quadro

que tua beleza expõe.


Agora, a felicidade corre em meus olhos.

Não sei bem ao certo qual

o verdadeiro motivo.

Mas quando estou ao teu

lado, quer em fotos, ou em pensamentos,

me sinto bem, me sinto leve, me sinto

num verdadeiro sonho que morre ao

raiar de uma nova aurora..


Mas quando acordo tudo

volta a ser como era antes.

Estou longe. Realmente é

difícil sentir o aroma

refrescante que deixa

escapar ao vento que te

rouba. Posso imaginar

os teus olhos quando cravo os meus

no lindo céu preto recheado pelas

pérolas cintilantes.


As estrelas ficam

a te mirar e todas sentem uma leve

tristeza no coração. Pois és tu a mais bela

e mais cintilante dentro todas

que já vi.


Nunca deixe seus sonhos de lado, corra,

lute, a limitação não existe para quem

realmente ama, quem realmente vive

um segundo aproveitando

todos os milésimos.


Paulo Razoni






segunda-feira, 7 de julho de 2008

O Caminhoneiro


Francisco, mais conhecido como “Chico Cola Maluca” era um caminhoneiro que já por muito tempo percorria todos os tapetões pretos deste Brasil. Era chamado assim porque um dia sua mulher o trocou por um sapateiro da cidade e os boatos foram cair nos ouvidos de seus amigos do batente que colocaram esse apelido nele. “Cadê tua cristal1 Cola Maluca”. Perguntavam eles ao velho Cowboy do Asfalto.

Francisco não dava muita atenção aos insultos dos seus amigos, mas um dia quando estava tomando umas doses de dinamite2 empalhada no Bar do Trunkão, um borracheiro que era seu conhecido chegou com uma lata de cola na mão e disse: “Chico, tua mulher mandou e disse que era pra tu colar o chifre.” Não queiram saber! O curto-circuito3 foi grande, garrafa de cerveja parecia chuva caindo do céu. Os murros eram secos. Não demorou muito até os dois serem colocados para fora do estabelecimento. Chico foi direto para seu caminhão vermelho que encontrava-se no acostamento. Entrou e tentou acalmar a cabeça. Dormiu por um certo tempo. Acordou meio tonto. Olhou no relógio e viu que já eram quase 22:00 e ele estava muito atrasado para pegar o asfalto pelas pernas e começar mais uma jornada.

Em pouco tempo os pneus já estavam sobre a pista que encontrava-se levemente molhada pela neblina que havia caído há pouco tempo. Tudo era escuridão, os vaga-lumes4 manchavam com luz aquele asfalto que estava mergulhado em densas trevas, realmente aquela estrada fazia qualquer Cowboy ficar angustiado. Era conhecida como “a rodovia da morte”, tinha uma grande extensão e uma história de muito sangue para contar.

Francisco já estava há um certo tempo dirigindo e achou tudo muito estranho. A BR não apresentava nenhum movimento, carros e outros caminhões não passavam pelo local. Tudo estava tão solitário. O ronco do motor de seu caminhão parecia ser silenciado pelos grilos que cantavam ao longo da estrada. Os faróis desenterraram de dentro da escuridão um acontecimento muito estranho.

Francisco pisou um pouco no freio para diminuir a velocidade. Os olhos dele arregalaram-se e quase grudaram no pára-brisa. Um grupo de freiras caminhava no acostamento. Formavam uma fila indiana. Ele pôde reconhecer que eram freiras pela enorme batina e véus que as mesmas usavam. Passou por elas bem lentamente, o caminhão quase parou, as freiras pouco se importaram, elas pareciam estar concentradas em algo, aparentavam estar destinadas há alguma missão. Chico balançou a cabeça sem entender o que aquelas mulheres faziam numa hora daquela na “Estrada da Morte”.

Ele continuou seu caminho e, mas na frente percebeu outra cena ainda mais perturbadora. Uma jovem senhora estava empurrando um carrinho de bebê e isso no meio do tapetão preto. Quando ela percebeu a presença de luz olhou rapidamente para trás e com muita rapidez dirigiu-se para o acostamento se apresando em fazer um sinal de carona para Francisco, que mesmo de longe notou um semblante de abandono e preocupação nos os olhos daquela jovem mãe.

Francisco parou o caminhão. Mesmo com medo de tudo aquilo ser uma tremenda armação para lhe roubarem a carga que transportava. Ele abriu a porta de passageiro e olhou para a mulher que usava um vestido de linho branco. Os olhos do Cola Maluca foram em direção ao carro que a mulher empurrava. Ele levou um baita susto ao ver que o que a mulher carregava naquele carrinho, era um anão, os olhos dele eram bem grandes e esbugalhados, os dentes eram extremamente grandes ao ponto de não lhe caberem na boca. O menino, melhor dizendo, o anão era careca, os poucos fios de cabelo que tinha lhe caiam sobre o rosto e eram cumpridos e muito finos, alguns estavam entrelaçados no enorme chifre vermelho que lhe sai da cabeça. A mulher falou com uma voz arrastada e grossa, parecia uma voz vinda do inferno: “Eu quero ir com você corno das trevas, me leve, me leve. Meu pequeno garotinho parece com você”. Realmente, as duas únicas semelhanças que Francisco tinha com o pivete era o chifre e a feiúra. Enquanto a mulher falava, Chico olhou no retrovisor e viu que as freiras que havia visto há pouco tempo vinham correndo na direção do caminhão. Elas pareciam estar muito bravas. Algumas traziam na mão grandes lanças pontiagudas. Francisco esfregou os olhos rapidamente e pregou-os novamente no retrovisor e percebeu que não estava sonhando. As senhoras que vestiam as longas batinas pretas corriam numa rapidez tremenda. A mulher que estava pedindo uma carona continuava falando: “Amor... quero ir com você... não abandone a mim e seu lindo filho”.

Ele fechou rapidamente a porta. As freiras ganhavam mais velocidade. A jovem mulher sacou de dentro da roupa um enorme tridente que emitia uma luz cobre. Chico entrou em desespero. O caminhão estava estancando. Ele não conseguia dar a partida. O anão levantou-se do carro e...



1. Cristal significa esposa para os caminhoneiros.

2. Água ardente de cana, cachaça.

3. Briga

4. Faróis

Paulo Razoni