
Havia ao todo nove pessoas na Kombi, o motorista e um grupo de jovens que seguiam para o Alto da Serra, local bastante conhecido na pequena cidade de Guaramiranga. A maioria encontrava-se em sono profundo, pois a viajem já durava nada menos que quatro horas. Além do motorista, Dj era o único que estava acordado, mas até então desatento. O jovem ouvia música alta em um “mp3” por não suportar “Bob Dylan”, enquanto o motorista balbuciava algumas palavras em um inglês quase que neologista, e jogava sua cabeça de um lado para o outro acompanhando assim o ritmo da música.
Foi aí que Dj percebeu algo estranho. O caminho que eles seguiam era outro, diferente do que ele conhecia. A paisagem pulava grosseiramente aos olhos do jovem que pareceu ficar inerte por alguns segundos tentando reconhecer algo que nunca tinha visto. Além do mais, o normal era que a viajem durasse três horas e meia, e não mais que quatro. Desafogando os fones de dentro dos ouvidos, ele tratou de acordar e avisar aos outros sobre o fato. Depois dos berros que DJ desamarrou de sua garganta, todos vieram a acordar, os jovens já estavam olhando janela a fora pensando ter chegado no local de destino, mas a paisagem ficava cada vez mais irreconhecível. Começava a partir dali uma pequena discussão entre eles para saber quem havia contratado aquele motorista e por que ele estava tomando um outro rumo. O relógio consumia rapidamente as horas, parecia voar fazendo com que o sol morresse na linha do horizonte sem dar um adeus à lua que ainda não havia aparecido na outra extremidade.
Ruth e Dayanne, as duas únicas meninas do grupo, excluíam-se dizendo que ficaram responsáveis apenas pela organização dos mantimentos. “Foram vocês que arrumaram esse motorista estranho, o que a gente faz agora?”. O tom de voz das duas transmitia medo e um começo de desespero. Nessa hora, Paulo, que adorava imaginar situações absurdas e assustadoras, divertia-se com a preocupação das garotas dizendo que o motorista estava levando-os para alguma civilização hostil e desconhecida. Rogério, empolgado, ia complementar a história do amigo, mas Rodolfo, seu irmão mais velho, o impediu tomando a frente de todos. “Eu vou falar com esse sujeito”, disse de forma sensata passando as mãos no cabelo afim de conter o nervosismo. “Acho que nos perdemos”, falou Dj.
Enquanto Rodolfo tentava chegar perto do motorista, lutando contra o balanço da estrada, Raul e JP procuravam o cartão de aluguel do carro que receberam ao pagar a primeira parte da corrida. Nele havia o nome e o telefone do motorista. “O nome dele é Pereira!”, gritou Raul, “Pereira, Pereira”, repetiu o jovem mais duas vezes. Isso mostrava que o nervosismo já estava tomando de conta do grupo. Rogério e Paulo continuavam inventando possibilidades toscas para aquela situação e riam entre si sem se importar com a angustia dos demais.
“Oh seu Pereira??”, disse Rodolfo. “Por que estamos indo por esse caminh...”. “Velho Jô!”, interrompeu o motorista. “O nome é velho Jô!”, repetiu. “O que?”, disse Rodolfo olhando para trás com desconfiança. “Mas nos indicaram alguém chamado Pereira”, continuou. O homem virou para trás tirando os óculos escuros, os olhos dele eram grandes e amarelados, a pele de seu rosto era manchada e em algumas partes as espinhas da época de sua puberdade pareciam tê-lo atacado ferrenhamente. “Meu filho...”, a voz do velho Jô saiu feito um trovão, “Pereira morreu há sete anos...”. Os olhos de Rodolfo quase saíram da órbita. Os outros passageiros pouco se importavam com o assunto que estava sendo tratado entre a cabine e o primeiro banco de trás da Kombi, mas ao ouvirem as últimas palavras do velho todos ficaram intrigados. Os dois contadores de histórias agora estavam sérios e de testa franzida.
Nessa hora todos já estavam cismados com aquele sujeito estranho. De repente as idéias malucas de Paulo começavam a parecerem coerentes. “Mas por que não fomos avisados sobre isso?”, gritou Rogério lá do fundo. “Ninguém nos falou de você”, complementou Raul. Agora Dj já estava do lado de Rodolfo. “Essa estrada não é a que conhecemos, onde estamos?”, disse. O velho Jô nada respondia. “Para onde está nos levando?”, disse Rodolfo segurando em seu braço. “Calem-se!!”, gritou o velho com sua voz estrondosa. “Essa é minha música favorita!”, continuou. Todos arregalaram os olhos espantados. “Que se dane a música!”, disse Raul com seu jeito explosivo. “Queremos ir para Guaramiranga, e não para o inferno com você!”, continuou. As meninas já estavam realmente assustadas e pediam para sair dali. Rogério tentava acalmá-las dizendo que iria arrumar outro transporte até a cidade, enquanto os outros tentavam arrancar alguma informação do velho. “Calem-se todos vocês pirralhos!” - gritou novamente o velho empurrando com o braço direito Dj e Rodolfo, que foram amparados por Rogério e Paulo. Nessa hora Raul e JP voaram em cima do velho mandando que ele parasse segurando em seu braço. O velho tentou fazer o mesmo com os dois mas não pode com JP, que apesar de ser o mais novo do grupo, era o mais alto e forte. A situação ficou fora de controle, ouviam-se os gritos das meninas no fundo, até que um barulho de buzina ecoou na frente deles. Era um ônibus que vinha em sentido contrário, o velho não teve escolha a não ser puxar a direção para o lado onde havia um pequeno desfiladeiro em forma de talude. O carro despencou rapidamente tombando em pedras e troncos, todos gritavam desesperados e se chocavam entre si até a Kombi colidir de frente numa enorme árvore.
O automóvel espalhou folhas e levantou muita poeira até o local da colisão. No chão as malas se espalharam juntamente com estilhaços de vidro e os mantimentos que foram arremessados sobre a terra úmida. A lataria da banheira azul Royal já estava em estado crítico e, depois do choque com a árvore, estava parecendo uma enviada pela pior sucata do Brasil. O sol ainda estava perceptível no horizonte, mas já começava a pairar no ambiente uma névoa cinzenta. Alguns minutos depois Dj despertou lentamente, viu sangue em suas mãos e se assustou, parecia não acreditar que fosse seu. Ele olhou em volta e viu Dayanne e Ruth desacordadas sobre suas poltronas. Rogério estava sentado junto de seu irmão que também parecia estar desacordado. “Ele está bem, só desmaiado”, disse a Dj, que tentava se aproximar das garotas com dificuldade. Algumas poltronas haviam se soltado, o que tornava a movimentação dentro do carro mais difícil. Ele constatou que as duas meninas estavam bem e respirou aliviado, fazendo um sinal para Rogério. Os dois olharam para o outro lado e viram Paulo e Raul sentados com alguns arranhões pelo corpo. Logo depois as meninas despertaram. Rodolfo também já estava acordado e se queixava de dor na região das costelas. No mais pareciam estar todos bem. “Cadê o JP!”, gritou Dayanne. Todos olharam em volta preocupados. JP realmente havia sumido. “O velho também não está aqui!”, disse Paulo. A porta da frente estava aberta e com marcas de sangue.
Todos saíram de dentro da Kombi meio tontos, olharam ao redor confusos e gritaram o nome de JP, mas nem sinal do rapaz. Sem conter o desespero, as meninas choravam assustadas, enquanto os rapazes olhavam uns para os outros tentando imaginar soluções. “Vamos atrás do JP”, disse Rodolfo. “Acho melhor esperarmos ajuda, alguém deve ter visto o acidente”, disse Ruth prendendo o choro. “Vamos juntar todas as coisas que estão inteiras, temos que acampar em algum lugar por aqui”, disse Rogério apanhando uma mala. “Tem razão”, disse Raul ajudando-o com os mantimentos. Paulo analisou o desfiladeiro por onde haviam despencado, por sorte ele não era tão íngreme, senão já estariam mortos. “Seria melhor a gente voltar pra estrada para conseguir ajuda, mas não consigo vê-la”, disse Paulo. “Que coisa estranha”, disse Raul cismado. Dj olhava atentamente para o horizonte marcado por árvores e vultos macabros, como se tivesse visto alguma coisa. “O que é aquilo?”, disse desconfiado. “O quê? Não vejo nada”, disse Rodolfo. Todos olharam atentos na direção apontada, parecia ser uma sombra que foi rapidamente engolida pela névoa. “Será que era o JP?”, perguntou Rogério apertando os olhos. “E se for aquele velho maluco?”, disse Dayanne. “Se for eu vou acabar com ele!” disse Raul com as mãos fechadas. “Calma aí pessoal, vamos nos acomodar por aqui de algum jeito. Já é praticamente noite, sair por aí seria arriscado”, disse Dj apontando para a lua que começava a se mostrar. “Tem razão, vamos esperar até o amanhecer e aí faremos alguma coisa”, concordou Rogério. Todos pareciam estar de acordo com a idéia e começaram a se acomodar por ali mesmo arrumando as barracas e as malas. Pouco tempo depois, apenas uma fogueira que eles prepararam iluminava e aquecia seus rostos desolados, enquanto a lua se escondia atrás de nuvens negras. O sol já não reinava mais, e a sorte desses jovens parece que também não.
--------------- Fim do 1° capítulo ----------------





